A rotina de Giselle Dantas, 45, doméstica, moradora e líder comunitária do Beco Nonato, localizado no bairro Cachoeirinha, zona sul de Manaus, foi marcada, durante muitos anos, por episódios que ainda lhe causam preocupação sempre que falta água ou quando percebe a sujeira acumulada perto das tubulações expostas.
Até 2020, o Beco Nonato não estava interligado a um sistema de tratamento de água e esgoto; situação essa que só veio mudar quando a concessionária Águas de Manaus iniciou a instalação das tubulações elevadas. Casos de diarréia, náuseas e vômitos eram constantes após Giselle realizar a refeição ou após tomar um simples copo de água. Segundo ela, situações do tipo se estendiam a familiares e vizinhos do Beco.
“A gente enchia os baldes e caixas para não ficar sem água, mas aí, com o tempo, a gente percebeu que ela não era própria para beber, nem para fazer comida. Mas já era tarde e a gente nada podia fazer. Eu, por exemplo, acabei adoecendo. Fui muitas vezes, bem mal, ao hospital. Outras vezes, eu ia acompanhar a minha mãe passando pela mesma situação. Lá, o médico sempre dizia que o mal estar era por conta da água contaminada”, recorda Giselle.
A situação, segundo a moradora, se tornava ainda mais preocupante quando, ao lavar as roupas, ela percebia que as vestimentas continuavam com a aparência suja devido aos resíduos contaminantes contidos na água armazenada. “Uma coisa que paramos de fazer, na época, foi parar de lavar as roupas brancas, porque sempre ficavam amareladas”, conta.
É nesse ponto que o processo de saneamento ganha centralidade. A concessionária Águas de Manaus, já em 2018, ano em que iniciou suas operações na capital, visando universalizar o acesso à água e ao esgotamento sanitário à população, realizou um levantamento, a fim de mapear, e incluir, áreas vulneráveis no sistema de saneamento. À primeira vista, as construções desordenadas na capital amazonense pareceram um obstáculo: como enterrar as tubulações em uma área de palafitas?
Para superar essa barreira, a solução encontrada foi instalar tubulações suspensas, uma tecnologia aplicada no Beco Nonato e em outras comunidades como o rip-rap Duque de Caxias e o Beco União. Em vez de enterrar os canos, como acontece normalmente, eles foram fixados acima do solo, acompanhando a estrutura das palafitas. Dessa forma, a rede de abastecimento e de coleta de esgoto pôde ser estendida a áreas que antes eram consideradas de difícil acesso.
“Antes os nossos canos eram enterrados na lama. E os vazamentos aconteciam muito. E aí para beber água? Fazer comida?”, indaga Giselle. “Beber água da torneira? Nem pensar! Principalmente depois de ficar doente várias vezes. A gente tinha que comprar água para beber e, quando não tinha dinheiro, o jeito era colocar um pano na boca da torneira [na tentativa que a água viesse sem contaminações]”, lembra a moradora.
As tubulações suspensas funcionam como uma “ponte aérea” para a água e o esgoto: ficam apoiadas em suportes metálicos, elevados a alguns metros do chão, o que impede que sejam danificadas pelas cheias ou pelas más condições do solo. Com isso, famílias que antes precisavam improvisar ligações irregulares, ou comprar água sem a devida procedência, passaram a contar com um sistema formal, seguro e higiênico, reduzindo riscos de doenças e melhorando a qualidade de vida da comunidade.

No Beco Nonato, a água potável chegou em 2020 e o sistema de esgoto foi introduzido em 2022. Mas outro impasse surgiu: grande parte dos moradores não tinha condições financeiras de arcar com as ligações internas, já que a responsabilidade da concessionária vai apenas até a porta da casa. A partir dali, o custo da instalação de canos e conexões para levar a rede de esgoto até os cômodos internos recai sobre cada família, um desafio para quem vive em situação de vulnerabilidade.
Diante desse cenário, e considerando o impacto social da medida, a Águas de Manaus decidiu executar obras intradomiciliares, conectando banheiros e cozinhas ao sistema. A iniciativa garantiu que o serviço de coleta fosse efetivamente utilizado pela comunidade, evitando que os dejetos continuassem sendo lançados em igarapés ou no entorno das palafitas, o que era muito comum. Segundo dados de 2023, divulgados pela Águas de Manaus, mais de 900 moradores do Beco tornaram-se beneficiários das iniciativas tanto em relação às tubulações quanto às obras intradomiciliares.
“Por uma questão social, fizemos a tubulação do esgoto. Nós entendemos que o saneamento tem que ser para todos. Mas a questão não é só dizer que é para todos. Desde que a gente chegou em Manaus, em 2018, já fizemos mais de 200 quilômetros de rede em áreas vulneráveis”, destaca Jéssica Candeia, engenheira civil e gerente de operações da Águas de Manaus.
No Beco Nonato, a chegada da água encanada e do sistema de esgoto representou mais do que uma obra de infraestrutura: foi um passo importante para garantir dignidade a famílias que há décadas conviviam com a ausência de serviços básicos. Um dos principais entraves era a dificuldade de pagamento das contas, já que muitos moradores precisavam optar entre a alimentação da família e a quitação da tarifa de água. Para enfrentar esse desafio, a concessionária implantou mecanismos de cobrança diferenciados.
“Muitas vezes, essas pessoas têm que escolher o que pagar: eu vou comprar comida ou vou pagar minha conta de água? A pessoa, certamente, vai comprar comida. Então, a gente fez um estudo e adaptou as nossas faturas aos valores para atender esse tipo de cliente”, explica Jéssica.
Hoje, os moradores podem contar com duas modalidades: a Tarifa Manauara, que garante desconto de 50% no valor da fatura, e a Tarifa 10, voltada a famílias em extrema vulnerabilidade, que pagam apenas R$ 10 para ter acesso à água e ao esgoto.

A mudança foi ainda mais significativa no aspecto social. A ausência de contas de água ou luz fazia com que muitos moradores não tivessem sequer um comprovante de residência, documento básico para acessar serviços públicos e privados. “Muitas vezes, quando a gente chega nessas comunidades, é a primeira vez que eles vão ter um comprovante de residência. No Beco Nonato, há 40 anos que eles não tinham. Quando precisavam matricular o filho na escola, pegavam o comprovante de um parente. Quando compravam algo, a loja não entregava na casa, porque não tinham comprovante de residência. Então, quando a gente levou água, a gente levou esse comprovante que faltava. Além da estrutura, a gente leva também dignidade”, destacou a concessionária.
No entanto, mesmo com o sistema de água universalizado, alguns relatos refletem os desafios do saneamento em Manaus, como é o caso de Dilcicleia Pinheiro, dona de casa, moradora da comunidade João Paulo, localizada no bairro Jorge Teixeira, zona leste da capital. Ela lembra que, embora o abastecimento de água exista, a rede de esgoto ainda não chegou à sua área. Nos últimos meses, a situação se agravou com as constantes faltas d’água, que afetaram até mesmo famílias que dependem do recurso para trabalhar. “Tem pessoas que vivem de preparar refeição e ficam prejudicadas. Semana passada, por exemplo, faltou água e atrapalhou muita gente”, conta.
Os problemas se intensificam no período de chuvas, quando alguns canos mal instalados ficam expostos, se rompem facilmente e transformam o chão em buracos por onde a água corre. Nessas ocasiões, crianças acabam aproveitando para brincar e tomar banho, enquanto a comunidade sofre com o desperdício e o desabastecimento.
“Falta melhorar as encanações, porque quando chove logo ficam expostas, quebram e estragam muita água. E aí o povo fica sem”, resume a dona de casa, traduzindo a realidade de centenas de moradores que ainda aguardam soluções definitivas.
Entenda o processo de tratamento de água em Manaus
Maior complexo de produção de água de Manaus, a Ponta do Ismael (PDI), localizada no bairro Compensa, zona oeste da capital, possui duas estações de captação e tratamento de águas, denominadas ETA 1 e ETA 2. Diariamente, as estações captam e tratam, em média, 700 milhões de litros de água, retirados diretamente do Rio Negro, abastecendo 70% da população manauara. O restante da população é abastecido por meio da ETA Mauazinho e da ETA Ponta das Lajes, ambas na zona leste de Manaus.

Após a captação das águas, por meio das linhas de adução, inicia-se o processo de flotação, a fase de separação de misturas. Essa técnica é realizada em razão da peculiaridade do Rio Negro, que é rico em carga orgânica, por isso sua cor escura. Em outras palavras, a flotação é o processo de subida dos resíduos contidos na água do Rio Negro Devido à quantidade de água retirada para o abastecimento populacional, o sistema de flotação da PDI é o maior da América Latina.
No processo de flotação, para que os materiais orgânicos sejam separados da água, são introduzidos produtos químicos (sulfato líquido, cal hidratado e polímero), juntamente com oxigênio dissolvido. A partir do processo químico do oxigênio, e realizando agitação por meio de chicanas (labirintos), criam-se flóculos, ou seja, é gerada uma camada de todo o resíduo escuro proveniente da matéria orgânica. Neste caso, a água sobe e vai pros flotadores.

Dando continuidade ao processo de potabilidade, após a flotação, a água vai para os filtros. Matérias e sedimentações que não puderem ser vistas a olho nu serão retidas nos filtros. Camadas de areia e carvão ultrassito são utilizados dentro dos filtros. Esses materiais filtram a água para que consigam fazer a etapa de desinfecção, etapa em que é adicionado flúor e cloro, para atingir a potabilidade. Vale ressaltar que todas as etapas ocorrem de forma automatizada, sem a necessidade de operadores humanos, a todo momento, para realizar os comandos.
Investimentos
A meta é ousada: levar o esgoto a mais de 90% da população da capital até 2033. Por isso, em janeiro de 2024, fruto de parceria com a Prefeitura de Municipal, foi lançado o programa Trata Bem Manaus, por meio do qual serão investidos R$ 2 bilhões para, entre outras medidas, construir pelo menos 70 estações de tratamento (ETEs) e mais de 2,7 milhões de metros de tubulações coletoras. Hoje, o abastecimento de água já é praticamente universalizado, alcançando 99% da cidade, enquanto o esgoto, que tinha cobertura mínima em 2018, já chega a 34% da população.

A concessionária também atuou na regularização de ligações clandestinas entre 2018 e 2025, período em que mais de 200 quilômetro de rede foram formalizados, beneficiando cerca de 200 mil pessoas, o equivalente a 50 mil famílias que passaram a ter acesso à água tratada de forma segura.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) calcula que, a cada R$ 1 investido em saneamento, há uma economia de R$ 4 em gastos com saúde pública. Isso significa, nas palavras do economista e professor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Luciano Balbino, que os R$ 1,6 bilhão aplicados em Manaus desde 2018 podem resultar em até R$ 6,4 bilhões em benefícios sociais e econômicos.
Ele ressalta: “essa economia vem de menos internações por doenças ligadas à água, maior produtividade da população, menos dias perdidos de trabalho e estudo, e melhor qualidade de vida. Em termos de desenvolvimento, não é apenas ‘gastar menos com hospitais’, é liberar tempo e capacidades humanas para produzir, estudar e viver melhor”.
De acordo com a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas Drª Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP), no primeiro semestre de 2025, não houve casos de hepatite A em Manaus. Já em relação a casos de diarreia, houve uma redução de 46% em janeiro de 2025, na comparação com o mesmo mês do ano anterior: foram 14 mil casos em janeiro de 2024, contra 7,5 mil no mesmo período deste ano. O comparativo anual também mostra queda de 10% entre 2023 e 2024.
Para o professor Balbino, bairros que recebem saneamento tendem a se valorizar ao longo do tempo. Não apenas porque os imóveis ficam mais caros, mas porque o ambiente urbano se torna mais atrativo: ruas mais limpas, melhor cheiro, menos risco de doenças. Mas pondera: “É preciso destacar que a valorização depende também de serviços confiáveis e de integração com outras melhorias, como transporte, iluminação e segurança. O saneamento transforma capital físico em capital social: melhora o presente e aumenta as possibilidades de futuro para a cidade e seus moradores”, pontua.
O desafio, contudo, não está apenas nas obras. Há também uma questão cultural. “Você dá uma descarga e pronto, não quer saber para onde vai. É preciso mudar essa percepção: o esgoto é um bem coletivo. Se não for coletado e tratado, ele contamina o solo, os igarapés e até os lençóis freáticos”, ressalta Jéssica.
Balbino também aponta que os avanços de Manaus dialogam diretamente com as metas do Marco Legal do Saneamento (universalização até 2033) e com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: ODS 6 (água limpa e saneamento), ODS 3 (saúde) e ODS 11 (cidades e comunidades sustentáveis). “Cada ligação de água e esgoto não é só uma obra de engenharia, mas um passo na direção de um modelo de cidade mais saudável, inclusiva e sustentável. Esse é o sentido moderno de desenvolvimento: alinhar crescimento econômico com qualidade de vida e preservação ambiental”, acrescenta.

Inovação é peça-chave
Quando a estiagem histórica de 2023 reduziu drasticamente o nível do Rio Negro, a capital amazonense se viu diante do risco de desabastecimento. Foi aí que uma novidade tecnológica entrou em cena: a Bomba Anfíbia, capaz de operar tanto submersa quanto fora do rio, garantindo a continuidade do fornecimento mesmo nos períodos mais críticos. Importada do Rio Grande do Sul, essa inovação foi instalada pela Águas de Manaus na ETA Mauazinho, em uma estrutura adaptada sobre balsas, e representa a estratégia de combinar tecnologia e planejamento para enfrentar as particularidades ambientais da Amazônia.

Desde que assumiu a concessão em 2018, a empresa já investiu mais de R$ 1,6 bilhão em projetos que incluem a modernização do sistema, abrangendo automação de estações de tratamento, expansão de redes de esgoto e implantação de equipamentos de última geração. “O que o saneamento no mundo usa a gente também usa aqui em Manaus”, garante Afrânio Almeida, coordenador de Eficiência Operacional da concessionária.
Da captação no Rio Negro até a distribuição nas torneiras, por exemplo, cada etapa é acompanhada por sensores automatizados (contidos dentro das bombas) que monitoram, em tempo real, parâmetros como pH, cor, turbidez e oxigênio dissolvido. Todo esse sistema é integrado ao Centro de Controle Operacional (CCO), considerado o “cérebro” da operadora.
Na Centro, que funciona 24 horas por dia e durante os sete dias da semana, um conglomerado de telas reúne dados atualizados a cada segundo sobre bombas, reservatórios, estações de tratamento e demais informações sobre a distribuição. Essas informações podem ser filtradas por região, bairro ou rua, permitindo identificar de imediato oscilações de pressão, rompimentos de adutoras ou quedas de energia antes que afetem a população.
“A quantidade de telas está relacionada à quantidade de sistemas. Em um futuro próximo, a estrutura vai estar ainda maior devido às novas redes de esgoto. Quanto mais redes de esgoto entrarem, mais unidades operacionais vão entrar”, salienta Luíz Castro, operador do CCO. Quando uma irregularidade é detectada, os técnicos acionam as equipes de campo, que recebem ordens de serviço a partir das informações captadas pelo sistema.
No campo, equipes utilizam o geofone, um equipamento de ponta capaz de detectar ruídos anormais na tubulação e identificar vazamentos invisíveis, sem necessidade de escavações desnecessárias. Aliado a isso, medidores inteligentes conectados por Internet of Things (IoT) – Internet das Coisas – enviam dados para o CCO, onde especialistas em data science analisam comportamentos de consumo. “Se um cliente que consome 10 m³ por mês apresenta, de repente, um salto para 50 m³, é feito contato imediato para verificar se há vazamento interno. Já quedas bruscas podem indicar fraude ou furto”, esclarece Jéssica Candeia.
A empresa também utiliza bots (robôs virtuais), vinculados ao georreferenciamento, em sua comunicação via WhatsApp que sinalizam ao consumidor caso sua região esteja passando por manutenção no sistema. “Então, quando o consumidor pega o celular e entra em contato com a gente, uma mensagem automática já chega para ele informando se o bairro ou a região está passando por reparos”, explica a gerente de operações.
No combate a perdas, a concessionária aposta no projeto Asterra, que utiliza imagens de satélite para identificar possíveis vazamentos não visíveis na rede. O monitoramento também inclui o consumo energético, a partir do programa Follow Energy, pelo qual é possível ler a potência das bombas em tempo real e calcular o desempenho de cada equipamento.
Previsão hidrológica

O acompanhamento diário das principais cabeceiras dos rios passou a ser fundamental para prever os efeitos das chuvas em Manaus com dias de antecedência. Segundo Afrânio Almeida, antes havia grande dificuldade em estimar o nível do Rio Negro até mesmo para a semana seguinte. “Devido a isso, nosso colega Israel realizou o mapeamento das principais cabeceiras e, por meio de um algoritmo, conseguimos prever os impactos”, conta Afrânio. “Se chover em Porto Velho hoje, daqui a 15 dias refletirá em Manaus. Se chover em Tabatinga, em 30 dias vai refletir aqui”, exemplifica. O sistema cruza todas essas informações e já indica qual será o nível do rio no dia seguinte.
Programa Infra Inteligente
O sistema Infra Inteligente permite o controle digital de todos os equipamentos da concessionária na capital. Bombas, válvulas, reservatórios e estações são georreferenciados e recebem um QR Code, que funciona como uma espécie de identidade digital. Ao escanear o código, os técnicos acessam imediatamente informações como localização, histórico de manutenção e estado de operação do equipamento. Esse mapeamento, aliado a tecnologias de drones, câmeras 360° e GPS, possibilita localizar de forma precisa onde está cada estrutura na cidade e refletir em painéis digitais o que ocorre em campo.
Tecnologias para expansão

Para o planejamento da expansão da rede, softwares de modelagem hidráulica como Water Gems (água) e Sewage Gems (esgoto) simulam a demanda de cada bairro e apontam a infraestrutura necessária. “Se formos incluir uma unidade em um novo bairro, fazemos os voos com drones, acompanhamos tudo e jogamos nos softwares. Conseguimos ver a demanda e a tubulação necessária para aquela região. É uma redução do erro humano. O resultado é mais assertivo”, aponta Afrânio.
Segundo ele, atualmente a empresa possui três drones, que também são usados para contabilizar áreas consideradas irregulares.“Um levantamento que demoraria uma semana, agora é possível dentro de uma hora a partir da topografia que vem do drone”, destaca.