Situação política de Biden piora com buscas do FBI

Já os advogados de Biden argumentaram que a busca de sexta-feira (20) acentuou a cooperação com a investigação e o conselho especial indicado para o caso
Foto: Divulgação / Money Times

Por Stephen Collinson / CNN

A busca feita do FBI na casa do presidente dos EUAJoe Biden, e a descoberta de mais material confidencial deixou ainda mais séria a controvérsia dos documentos secretos e piorou as consequências políticas do caso.

Os advogados de Biden argumentaram que a busca de sexta-feira (20) acentuou a cooperação com a investigação e o conselho especial indicado para o caso – um comportamento totalmente diferente daquele do ex-presidente Donald Trump em seu escândalo de documentos confidenciais ou “classificados”.

No entanto, o fato de agentes do FBI fazerem busca na residência privada de um presidente que está no posto continua a ser extraordinária, mesmo com a Casa Branca querendo colocar panos quentes.

A operação provocou novas perguntas sobre por que Biden ainda ter informações secretas oriundas de seu período como vice-presidente; como o material, normalmente tratado com extremo cuidado por servidores federais, acabou em sua residência privada; e se ele estava protegido de olhares indiscretos nos anos em que esteve lá.

As novas descobertas levaram a algumas críticas dirigidas ao presidente, mesmo entre os democratas. A gestão da controvérsia pela Casa Branca, que alimentou o clássico ciclo de gotejamento de um escândalo em Washington, daqueles que emergem lentamente, gota a gota, desviou a atenção de um período de sucesso político do presidente. Além disso, ofereceu aberturas para a nova maioria republicana na Câmara.

“Quando uma informação [sigilosa] é encontrada, ela diminui a estatura de qualquer pessoa que está em posse dela, porque não é o que deve acontecer”, disse o vice-líder da maioria democrata no Senado, Dick Durbin, no programa “State of the Union”, no domingo (22). “Se foi culpa de um funcionário ou de um advogado, não faz diferença. O político eleito tem a responsabilidade final”, acrescentou o senador de Illinois.

Assim como outros democratas, Durbin também tentou fazer comparações entre a cooperação de Biden com o Departamento de Justiça (DOJ) e os meses de aparente confusão proposital de Trump e até mesmo a possível obstrução criminosa no caso do ex-presidente, que envolve uma quantidade maior de documentos classificados. Os principais nomes do Partido Republicano, no entanto, procuraram aprofundar o desconforto de Biden, aproveitando a oportunidade dada aos seus inimigos políticos.

“Como ex-procurador federal, acho que o que é importante é que eles não estejam usando apenas os advogados, embora a busca tenha sido consensual”, opinou o presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, o deputado republicano Michael McCaul, também no programa “State of the Union”. O republicano do Texas continuou: “O fato é que o FBI conduziu essa busca, não os advogados, o que muda o rumo da investigação”.

Embora existam distinções legais entre os casos de Biden e Trump, muitos eleitores podem simplesmente perceber que ambos são apenas uma questão de reter documentos confidenciais em casa. E, embora daqui a anos, quando o legado do atual presidente for avaliado, o seu constrangimento atual possa ser um mero soluço, ele representa hoje farta munição para a campanha de Trump em 2024, já que derruba uma das linhas de ataque mais potentes contra ele.

Casa Branca tenta amortecer a controvérsia

A visita de dos agentes do FBI à casa de Biden em Wilmington, Delaware, que durou 13 horas, foi revelada publicamente pelo advogado pessoal de Biden na noite de sábado. Ele disse que o Departamento de Justiça (DOJ) tirou “seis itens que consistem em documentos com marcações de classificação [sigilo] e materiais adjacentes, alguns dos quais eram da funç

ão do presidente no Senado e alguns de seu mandato como vice-presidente”. O departamento também tirou algumas notas escritas à mão dos anos de Biden como vice-presidente, disse o advogado Bob Bauer no comunicado.

A operação aconteceu depois que aproximadamente 20 documentos serem encontrados pelos advogados do presidente na casa de Biden e em um escritório que ele usou em Washington depois de deixar a vice-presidência.

Richard Sauber, um advogado sênior da Casa Branca, escreveu em um comunicado no sábado que Biden estava “comprometido em lidar com isso de forma responsável, já que ele leva isso a sério”. Segundo o advogado, ele e sua equipe trabalharam “rapidamente para garantir que o DOJ e o Conselho Especial tenham o que precisam para realizar uma revisão completa”.

É uma clara tentativa de distinguir a situação do presidente da de Trump, que resistiu às tentativas de entregar informações confidenciais em sua residência em Mar-a-Lago, aparentemente enganou os investigadores sobre o que tinha, acusou o FBI de plantar informações incriminadoras e afirmou que já havia “desclassificado” os papéis, mesmo que não houvesse nenhum sinal sugerindo tal procedimento.

Entre as possíveis acusações que Trump enfrenta em sua própria investigação do comissário especial indicado para o caso está a obstrução da justiça. A conduta de Biden não parece sugerir que ele vá enfrentar uma situação semelhante, mesmo sem usar antigas prerrogativas do Departamento de Justiça que garantiriam a proteção a presidentes no cargo.

Em teoria, é possível ver uma eventual justificativa para processar Trump, por exemplo, por obstrução, se as evidências forem nesse sentido, e Biden escapar ileso.

Mas, embora tais distinções legais possam existir, as consequências políticas de tal curso seriam incendiárias. A questão de julgar Trump como ex-presidente e atual candidato à Casa Branca de 2024 – tanto sobre a saga dos documentos como por causa de seu papel antes da insurreição do Capitólio dos EUA em 2021 – já era radioativa. Qualquer percepção de que ele está sendo tratado de forma diferente do que Biden, com os dois rivais sendo potencialmente os oponentes em 2024, criaria um inferno político que Trump certamente explorará.

O escândalo gota a gota

A descoberta de novos documentos no sábado representou a última instância em que os eventos posteriores – incluindo a descoberta de mais material confidencial – vieram após tentativas da Casa Branca e do presidente de minimizar a importância do caso.

Depois de Biden ter sugerido que os documentos classificados encontrados em sua garagem estavam seguros porque ela estava trancada para proteger seu amado Corvette, ele disse a repórteres que lhe perguntaram sobre a situação, na quinta-feira (18), que “não existe ‘lá’”.

No entanto, no dia seguinte, os investigadores do FBI que fizeram busca em sua casa em Wilmington acompanhados pela equipe legal do presidente encontraram mais material classificado de uma forma que bagunçou ainda mais as distinções entre o seu caso e o de Trump.

Embora os democratas tenham defendido o presidente, houve claros indícios de preocupação e até frustração entre seus aliados no Congresso de que a Casa Branca ainda não encerrou a controvérsia.

Tim Kaine, senador democrata de Virgínia, por exemplo, disse no domingo que questões importantes continuavam em aberto mesmo com o presidente cooperando com a investigação.

“É por isso que precisa haver essa investigação independente. De quantos documentos estamos falando? Dezenas, um punhado ou centenas? Qual a gravidade deles? Por que foram levados? Alguém teve acesso a eles?”, Kaine questionou no programa “Face the Nation”, da CBS.

Joe Manchin, o senador da Virgínia Ocidental que às vezes toma posições que colidem com os líderes do Partido Democrata, em parte devido à popularidade de Trump no seu estado natal, foi duro com Biden e também exigiu respostas.

“É inacreditável como isso pode acontecer. É totalmente irresponsável. O que deve ser feito é exatamente o que (Procurador Geral) Merrick Garland fez. Nomear um conselho especial. Vamos esperar e ver. Algumas pessoas estão tomando partido, Dizendo que o que Trump fez foi mais grave ou que o Biden fez foi pior. Talvez seja verdade. Eu não sei. Talvez não seja verdade. Vamos descobrir”.

A operação do FBI de sexta-feira, e a aparente cooperação da equipe jurídica de Biden, parecem tirar um dos principais pontos de crítica dos republicanos: que Trump foi tratado injustamente porque sua propriedade foi “invadida” e a de Biden não foi.

O Partido Republicano estava usando esse argumento, embora a busca na casa de Trump em Mar-a-Lago no ano passado tenha sido autorizada por um mandado judicial que exigia que o FBI convencesse um juiz de que havia uma causa provável de possível crime.

Mas poucos republicanos mencionaram tais distinções. O senador da Flórida Rick Scott tuitou: “Pense nisso: Joe Biden guardou documentos sigilosos em sua casa por anos sem explicação ou responsabilidade sobre o porquê”.

Entre vários outros tuítes raivosos dos republicanos, o senador do Missouri Josh Hawley acrescentou: “Parece um padrão de desprezo serial pela lei. O povo americano tem o direito de saber o que estava em todos esses documentos que Biden estava acumulando ilegalmente. E quem mais teve acesso a eles”.

A alegria dos republicanos refletiu a nova abertura dada para eles e uma fatia impressionante de sorte para Trump depois de um início sem brilho para sua campanha presidencial de 2024.

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